Tudo em Família

Tudo em Família
Na batalha pela retenção e pela fidelização dos funcionários, familiares se tornam aliados estratégicos a ser conquistados pelas empresas.


O cenário, infelizmente, já é familiar: com a taxa de desemprego no país pouco acima de 7%, as empresas enfrentam uma árdua batalha para evitar que seus funcionários sejam levados pela concorrência. O caso é especialmente sério quando se fala em cargos operacionais de baixa remuneração, nos quais a rotatividade bate recordes, e em jovens, que são vistos pelas companhias como recursos estratégicos para ocupar futuros cargos de liderança, mas que estão cada vez mais impacientes em relação ao avanço na carreira.


Diante desse desafio, uma das estratégias de retenção que vêm ganhando força nas empresas é se aproximar dos familiares dos funcionários, fazendo com que, no momento da troca de emprego, o voto deles pese a favor da permanência do profissional na companhia.


As iniciativas vão desde simples ações que envolvem mais os parentes no dia a dia, como visitas ao escritório e festas em datas especiais, até programas mais abrangentes, que estendem benefícios e capacitam membros da família, buscando inclusive trazê-los para o time de funcionários no futuro.


“Há cada vez mais uma preocupação em gerar um bem-estar para o funcionário e para a comunidade na qual ele está inserido. Ao trazer a família para perto, ele se sente mais em casa na empresa”, diz Elton Moraes, gerente do Hay Group.


A estratégia também vem sendo empregada por empresas que buscam conquistar o público jovem e convencê-lo a permanecer por mais tempo em seu quadro. A ideia é que, como os jovens estão saindo mais tarde de casa, eles dependam mais da família tanto para decisões financeiras quanto de carreira. Por isso, os pais vêm sendo chamados nos processos de integração.


“É muito importante ter os pais como aliados na hora em que ele quiser desistir da vaga, seja porque surgiu uma dificuldade, seja porque apareceu uma oportunidade. Nas conversas com os jovens, percebemos que a opinião deles realmente conta na decisão”, diz Adriana Chaves, diretora de desenvolvimento e carreira da DMRH.


A consultoria Deloitte começou a envolver os familiares dos trainees no processo de integração em 2009. A cada nova turma que ingressa na companhia, os pais são convidados a participar de um evento de um dia inteiro para conhecer melhor o negócio e os desafios que seus filhos terão pela frente. Mais de 1.100 pais e mães já participaram do processo.

Além de permitir que os familiares tirem todas as dúvidas, a empresa abre um canal para que eles conversem com os gestores se precisarem. A programação também inclui uma palestra com um especialista sobre conflito de gerações, que aborda a educação do jovem Y e suas implicações no ambiente de trabalho.


“É a geração do videogame, que quer sempre um novo desafio maior e mais rápido. É importante que os pais entendam isso, pois a opinião deles é ouvida e valorizada nessa fase”, diz Sônia Romeiro, gerente sênior de talent da Deloitte.


A KPMG, que, como a Deloitte, atua no segmento de consultoria, também convoca os pais com o objetivo de, juntos, convencer os jovens a assumir um compromisso de longo prazo com o negócio. Para envolver os familiares no processo de integração, envia à casa dos trainees um convite (com direito a pipoca e refresco) para que todos participem de uma videoconferência de boas-vindas.

Ao fim da apresentação institucional, promove um talk-show com o presidente, momento em que os pais também podem enviar suas dúvidas. “Procuramos trazer casos de sucesso, histórias de profissionais que mostram que a dedicação valeu a pena”, diz Carolina Coelho, coordenadora de RH da KPMG no Brasil. A iniciativa começou em 2012 e, segundo Carolina, já contribuiu para uma redução de 7% no turnover nessa faixa do quadro.


De forma diferente, mas com o mesmo propósito de conter a fuga dos jovens, a distribuidora de energia Elektro trouxe a família para dentro da empresa. “O estágio começa no segundo semestre, termina em novembro, mas só contratamos em janeiro. O problema é que alguns passavam em diversos processos e acabavam escolhendo outra empresa”, diz a gerente de RH, Noe­mi Oga.

Em 2013, a empresa começou a convidar os familiares dos futuros estagiários para conhecer a empresa após a aprovação. Além de uma visita às instalações da companhia, a agenda inclui conversa com os gestores de todas as áreas e com o presidente. O resultado foi positivo: na primeira turma de 40 estagiá­rios que passou pela atividade, o turnover foi reduzido a zero.


Embora reconheça que a estratégia possa funcionar para algumas empresas, Rosana Rodrigues, sócia da Choice Consultoria, recomenda usá-la com parcimônia. “Em muitos casos, o problema dessa geração tem a ver com maturidade. É importante refletir se, ao trazer os pais para o processo, não se está atrasando esse desenvolvimento.”

Autor: Daniela Moreira - Revista Você RH

Link original: http://exame.abril.com.br/revista-voce-rh/edicoes/33/noticias/tudo-em-familia


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